sexta-feira, 22 de maio de 2015

Mais escolas, menos presídios, por que não?

Pode parecer lógico reagir com violência a uma violência. Só que não. Especialmente para as pessoas que recorrem às religiões para ancorar seus valores de vida, o desafio é responder à violência com a paz, a compreensão, o perdão, a defesa de direitos. Sim, direitos. Uma sociedade que responde com violência à violência anda em círculo, não resolve os problemas que causam e alimentam violências físicas, psicológicas, afetivas. Vive na sequência de direitos negados, herança entre gerações e gerações. Não cura as doenças sociais da praga da desigualdade, o pilar do modelo econômico insustentável para determinar o "lugar" das pessoas no mundo.

Bater em quem bateu em você apenas iguala ambos. Xingar quem xingou você só estressa mais ambos. Mas, reagir igual agiram com você parece ser coerente. Só que não. O que diferencia você é tratar o outro como você gostaria de ser tratado, é não agir com os outros do jeito que você não gostaria que agissem com você. Difícil. Difícil esquecer raivas. Difícil controlar o impulso. Difícil dar a outra face, afinal quem quer apanhar? Difícil resistir à tentação de ferir quem nos feriu, de magoar quem nos magoou, de agredir quem nos agrediu, de prejudicar quem nos prejudicou. Por isso temos a justiça, um sistema criado pelos seres humanos para que o "olho por olho, dente por dente" não seja lei das ruas, para as pessoas não julgarem e sentenciarem quem se queira, na tentação da vingança, sucumbindo ao desafio de fazer prevalecer valores de vida. O poder de julgar e sentenciar, portanto, não nos pertence no aspecto da realização.

Cega, por não ver diferenças diante das leis, a justiça realizaria com imparcialidade julgamentos e sentenciamentos que não cabem a nós [e que moralmente não cabem em nós]. Por outro lado, na vida real, passamos por situações cotidianas que nos afetam em diversas dimensões, com graus variados de violência derivada do que nos falta, apesar de obrigações e responsabilidades definidas.

Então, com as leis que são feitas e aprovadas em nosso nome por quem elegemos para nos representar, deveríamos ter a garantia dos direitos que nos dão oportunidades, por exemplo, de acesso à educação. E com as políticas públicas, teríamos os nossos direitos garantidos, como escolas construídas, carteiras duráveis, recursos didáticos atualizados, merenda não desviada, professores dando aulas em segurança e bem pagos, cidadãos estudando com qualidade de ensino.

Mas, estória contada nem sempre coincide com história registrada fora dos livros e noticiários pela maioria da população. A realidade é ignorada, não desconhecida. Tem nome, rosto, memórias, sonhos, tem pais, irmãos, filhos, netos. Pode estar na cozinha da sua casa, na portaria do seu prédio, nas calçadas do bairro, abaixo da visão da sua varanda, na esquina do seu trabalho, depois das cercas da sua fazenda. Está nas periferias, comunidades ou favelas em que se mantém a distância suficiente para o convívio produtivo, utilitário, funcional.

Cada qual cada vez mais no seu quadrado, conjugamos juntos o antigo verbo inexistente desigualdar. Aceitando ou promovendo desigualdades, acumulando injustiças seculares, fizemos das cidades um caldeirão que borbulha frustrações, medos, infelicidades, desesperanças, ódios. Dessa mistura de opressões e dificuldades explodem violências e também o melhor dos brasileiros, a coragem, a perseverança, a criatividade, as capacidades mágicas de imaginar na adversidade e transformar a realidade.

Estamos todos cansados. Discursos, promessas e omissões repetidas, ano após ano, eleição depois de eleição, há décadas e décadas e décadas de irresponsabilidades. As obrigações básicas de administrar e fiscalizar não cumpridas, distorcidas, disfarçadas, conduzidas com pouca técnica, pouca ética, nos tornam reféns do que se consegue acessar das políticas públicas de Educação, Saúde, Habitação, Saneamento, em serviços chamados de benefícios. No caso da Segurança pública, somos exauridos no descaso pela vida.

A violência iguala o menino de 10 anos baleado por policial em uma favela carioca na zona Norte e o médico pai de dois jovens esfaqueado por assaltante em uma ciclovia na zona Sul da cidade maravilhosa. Os dois morreram, as duas famílias foram afetadas profundamente com perda, dor, trauma. Assim como iguala policiais e bandidos, também afetados por perdas e dores que não aparecem em seus estereótipos. 

Seguimos andando em círculo, e não é de hoje, faz tempo. No Rio de Janeiro, Moreira Franco foi eleito governador prometendo acabar com a violência no estado em seis meses, em 1986. Acabou? Não. Em 2015, temos a infâmia de bradar que é preciso baixar a maioridade penal e prender  jovens que cometem crimes. Vai acabar com a violência? Não. 

Para prender crianças e adolescentes, ah, precisa ter mais celas, construir mais presídios. Oh, quanta chance de faturar propinas com uma solução que não resolve nada. Ou temos presídios exemplares em que adultos criminosos são recuperados para reintegração ao convívio livre em sociedade? Não temos sequer a estrutura prevista em lei para cuidar das transgressões dos jovens e achamos que prisão simplesmente soluciona um problema causado por vários outros problemas.

Antes de revisar o Estatuto da Criança e do Adolescente é preciso, urgentemente, revisar com rigor a conduta dos administradores e legisladores públicos e exigir que cumpram suas obrigações e assumam suas responsabilidades. Na verdade, isso vale para todas as políticas públicas pelas quais pagamos sem ter de volta os serviços decentes, igualmente oferecidos e acessados. 

Não se trata de seguir à direita ou à esquerda, sem sair do lugar, e sim de como vamos seguir em frente. Não é no "olho por olho, dente por dente" levado ao pé da letra, não é com as "ideias geniais" dos políticos profissionalizados em empurrar problemas com a barriga. Especialistas sabem o que fazer, no que investir, não faltam propostas técnicas para as áreas e nem iniciativas comunitárias de sucesso em ações de Educação, Cultura, Saúde, Esporte, Habitação, Segurança Alimentar, Assistência Social, para atender à demandas na ausência do Estado, do Poder Público.

Para todo problema difícil, há uma solução simples e errada, nos lembra o Defensor Público-geral do estado do Rio, André Luís Machado de Castro, em seu artigo publicado na edição de 22/05 do jornal Extra. Oportuna reflexão, menos presídios e mais escolas [por favor...] { http://glo.bo/1JHmhKj
Arte Urbana num muro em Copacabana, Rio de Janeiro, 2015,
foto de Beatriz Carvalho Diniz [copyleft, faça bom uso sem fins comerciais]

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